O fluxo digital deixou de ser tendência para se tornar rotina em muitos consultórios e laboratórios de prótese. Mas uma dúvida ainda ronda boa parte dos dentistas: modelos digitais entregam a mesma precisão que os modelos analógicos? E entre os próprios fluxos digitais — injeção, usinagem, impressão 3D — existe diferença real de resultado?

Neste artigo, reunimos o que a literatura mais recente mostra sobre exatidão, comunicação clínico-laboratório e os pontos que fazem a diferença entre um caso digital bem-sucedido e um retrabalho.

Exatidão: o conceito por trás de toda comparação

Antes de comparar fluxos, vale alinhar um conceito-chave. Segundo a ISO 5725-1, adotada pela ABNT, exatidão é a soma de dois fatores:

  • Veracidade — o quanto os dados gerados se aproximam da realidade (no caso dos escâneres intraorais, o quanto a imagem 3D reproduz fielmente a boca do paciente);
  • Precisão — a capacidade de repetir o mesmo resultado em escaneamentos sucessivos.

Um bom escâner não é apenas aquele que “acerta uma vez”, mas o que repete o acerto de forma consistente.

Fluxo convencional x fluxo digital: onde está o ganho de tempo

No modelo convencional, o caminho é conhecido: moldagem no consultório → envio ao laboratório → vazamento em gesso → escaneamento de bancada (ou envio a um centro de planejamento digital) → projeto CAD/CAM → usinagem → maquiagem e glaze → ajuste final com o paciente.

No fluxo totalmente digital, o processo elimina etapas físicas: o escaneamento intraoral gera arquivos STL enviados imediatamente ao laboratório, muitas vezes permitindo que o projeto CAD/CAM comece no mesmo dia. Da usinagem em diante, o caminho se assemelha ao convencional.

Vantagens já documentadas do escaneamento intraoral:

  • Menos desconforto para o paciente
  • Redução do tempo clínico
  • Simplificação dos procedimentos
  • Economia do tempo de vazamento em gesso
  • Comunicação mais eficiente entre dentista e técnico de prótese
  • Comunicação mais clara entre dentista e paciente

Onde ainda existe desafio:

  • Identificação de términos de preparos mais profundos
  • Custo do sistema
  • Reabilitações de arco completo, onde a moldagem convencional ainda mostra maior eficiência clínica e preferência subjetiva dos dentistas

O fator humano por trás da tecnologia

Vale reforçar: o escâner não trabalha sozinho. Experiência do operador, tipo de equipamento e extensão da reabilitação escaneada influenciam diretamente a veracidade do resultado e o tempo de captura. Existe uma curva de aprendizado real — quanto mais o dentista domina o equipamento, mais rápida e mais fiel é a captura.

Na hora de escolher um escâner, características como tamanho da ponta intraoral, velocidade de aquisição e facilidade de manipulação pesam tanto quanto a exatidão do sistema em si.

Implantodontia: um capítulo à parte

Em casos de implante, a exatidão do escaneamento está diretamente relacionada a três fatores:

  1. Extensão da reabilitação
  2. Angulação dos implantes
  3. Componentes usados para capturar o posicionamento

Estudos recentes mostram veracidade semelhante entre escaneamento digital e moldagem convencional em implantes unitários em mandíbulas parcialmente edêntulas. Já em casos de múltiplos implantes, o aumento do espaço entre eles e da angulação prejudica a precisão — um ponto de atenção importante no planejamento.

O papel do transferente de escaneamento

Em áreas edêntulas, sem dentes de referência, a leitura da posição do implante depende de um componente específico: o transferente de escaneamento. A recomendação é sempre usar o transferente do mesmo sistema/fabricante do implante instalado, respeitando o desenho geométrico e o material — isso melhora significativamente a precisão do modelo digital final.

Guias cirúrgicos e a comunicação cirurgião-laboratório

O planejamento cirúrgico-protético normalmente acontece de forma simultânea, e a fotografia odontológica é peça central desse processo — não apenas o registro intraoral, mas também as características faciais que orientam escolha de forma e cor dos dentes.

O caminho típico do planejamento digital:

  1. Aquisição de imagens tomográficas
  2. Escaneamento intraoral inicial
  3. Impressão 3D do modelo físico de trabalho
  4. Diagnóstico e planejamento virtual do posicionamento 3D dos implantes
  5. Desenho do guia cirúrgico em software
  6. Impressão ou usinagem do guia aprovado
  7. Envio ao dentista para a cirurgia guiada

A grande vantagem aqui é objetiva: comunicação mais ágil com o laboratório e redução de tempo e custo de transporte, já que boa parte do processo acontece virtualmente.

Da seleção do componente protético à comunicação com o protesista

Assim como no fluxo cirúrgico, o sucesso da reabilitação protética depende da qualidade das informações enviadas ao laboratório: fotografias, escaneamento facial e escaneamento intraoral não são “opcionais” — são parte do padrão de trabalho.

Pontos práticos que fazem diferença no dia a dia:

  • Escolher o transferente de escaneamento correspondente ao sistema de implante instalado
  • Aparafusar corretamente no implante ou intermediário protético antes da captura
  • Informar ao laboratório o sistema de retenção e o tipo de intermediário protético que será utilizado

Essas etapas espelham o que já acontecia no fluxo analógico com o transferente de moldagem — a diferença é a velocidade e a rastreabilidade do processo digital.

O que a literatura diz sobre os resultados clínicos

Modelos impressos em 3D (base sólida ou oca), obtidos a partir do escaneamento intraoral, já apresentam níveis clinicamente aceitáveis de veracidade — independentemente da tecnologia da impressora. Estudos recentes acompanharam próteses unitárias monolíticas sobre implantes por até 5 anos, com alta taxa de sobrevida e poucas complicações quando o fluxo era totalmente digital.

Já as próteses fabricadas por diferentes tecnologias CAD/CAM — aditivas ou subtrativas — se mostram alternativas confiáveis e eficazes, mesmo comparando diferentes materiais restauradores.

Conclusão: onde a tecnologia CAD/CAM já é referência

A literatura atual confirma o CAD/CAM como alternativa confiável às técnicas convencionais para próteses fixas sobre implantes, especialmente em casos de até três elementos. As reabilitações totais de arco completo, no entanto, continuam sendo um desafio tanto para o clínico quanto para o laboratório de prótese — e é aí que a experiência do time e a qualidade da comunicação entre as partes seguem fazendo toda a diferença.

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Marcos Celestrino

Autor · Especialista

Marcos Celestrino

Atuação — Presidente do 10º Congresso Q4C — Quintessence for Ceramics no Brasil · Diretor científico da APOESP · Membro da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética (SBOE)
Publicações — Autor do livro “Essência — Odontologia sem fronteiras” · Coordenador do livro “Reconstruindo o Sorriso — Ciência, Arte e Tecnologia” (14º Congresso Internacional de Técnicos em Prótese Dentária e 14º Expolabo — Exposição Comercial da APDESP) · Coautor dos livros científicos “Invisível — Restaurações Estéticas Cerâmicas”, “Equilibrium — Cerâmicas Adesivas Case Book” e “Micro-Odontologia — Visão e precisão em tempo real”